Carlos Miguel da Silva, 62 anos, um destacado lateral direito da história do São José tendo sido Campeão da Copa Governador do Estado de 1971, atleta laureado pelo clube, nos conta um pouco da sua trajetória esportiva.

Site SJ: Nos conte como foi a sua carreira, desde os primeiros dias até hoje. C omo você se interessou pelo futebol e começou a praticar o esporte? Como foi sua passagem pelo Zequinha?

Carlos Miguel da Silva: Como todo menino que quando pequeno, parece que já nasce com uma bola no pé, comecei a jogar futebol desde pequeno então. Fui jogando, morava no Bairro Cristo Redentor e já muito cedo, com 12 anos eu tive um convite que na época me honrou muito, que foi o convite do Sport Club Internacional e aí eu fui jogar lá, desde as categorias de base, mirim, infantil, infanto juvenil, juvenil e um pouco no profissional. Aí quando eu estava aproximadamente com 18 anos, eu ainda tinha idade para jogar no juvenil, eu passei para os profissionais do Sport Club Internacional. Minha carreira foi assim, fiquei desde os 12 anos no Internacional até aos 18 anos e depois como eu fazia parte dos aspirantes, ainda não tinha oportunidade de jogar no time principal, foi feita uma troca aqui no São José com o Bandeira, centro médio que jogava aqui no São José, foi um jogador que na época o Internacional se interessou e foi para lá, mas aí, mais por questão financeira, porque eu ganhava um determinado valor no Internacional e vim para cá ganhando 5 ou 6 vezes mais do que ganhava no Inter. Então, praticamente foi uma troca, eu, vim para o Esporte Clube São José, o Nilo também veio, não em certeza se o Zago, centroavante, também veio nesta troca. Então vieram 3 jogadores do Inter e foi um do São José para lá. Eu, então, já com 18 anos, vim para o São José e aí realmente que comecei minha carreira como profissional. Eu devo ter jogado aqui no São José, botando todos esses anos, sou atleta laureado do clube porque eu joguei numa primeira fase 7 ou 8 anos, depois saí, fui para o Esportivo de Bento Gonçalves e voltei para o São José, onde joguei uns 2 anos mais.Na época que estive aqui fiz muitos amigos, jogadores que inclusive saíram do São José e foram para a Seleção Brasileira, como foi o caso do Nilo. Então, realmente, o São José na sua época teve um áureo, porque teve um time muito bom, o que aliás, o São José sempre teve times bons, modestos, mas bons. Times com um determinado número de atletas, não muitos, mas acho que a folha de pagamento não permitia que o São José tivesse o excesso de jogadores, uns 17 ou 18 jogadores, as vezes até faltava jogador para o coletivo, mas sempre tinha alguém por ali que eram convidados para completar os times. Eu também tive a felicidade de pegar esses times grandes, inclusive tive convites para jogar para fora, na época em que eu tinha 1 ano e meio de São José, fui fazer um período de testes no Vasco, fui bastante feliz no Vasco, só não fiquei em virtude do preço do passe. O Vasco ofereceu um valor e o São José ofereceu um outro e o presidente na época resolveu valorizar o meu passe, que na época era vendido, então aí não fiquei no Vasco, voltei para o São José. Mas não me arrependo disso aí, porque eu sempre, desde moço aprendi a gostar do São José. Hoje faço parte do clube, sou sócio, já fui vice-presidente do clube, fui dos veteranos, só não joguei mais porque já estou com 62 anos e o meu período de futebol já passou, agora é cuidar dos netos. Já dei minha contribuição, mas sempre que precisa estou por aqui, prestigio muito as festividades do clube, trago uma turma de amigos.

A gente teve um período muito bom também, foi no ano de 1971 que fomos Campeões da Copa Governador do Estado, isso realmente foi um título que marcou bastante, tanto a nós como o Esporte Clube São José que foi campeão.

Site SJ: O Senhor lembra o ano que veio para o São José?

Carlos Miguel da Silva: Foi no ano de 1963

Site SJ: Ficaste até que ano jogando aqui no clube?

Carlos Miguel da Silva: Fiquei aqui no São José de 1963 até 1970, são 8 anos, depois eu fui para o Esportivo de Bento, fiquei 4 anos e meio lá e depois eu voltei e joguei mais 2 anos aqui no São José.

Site SJ: Quais eram as características do Carlos Miguel, qual era a sua posição em campo?

Carlos Miguel da Silva: Eu jogava de lateral, em virtude do meu tamanho, que não ajudava muito para jogar noutra posição. Então, jogador, que é baixo, ou pode jogar na lateral ou na ponta direita. Na época eu não tinha altura. Mas joguei, tive uma fase muito boa, eu era capitão do time do São José

Site SJ: Quais foram as suas maiores conquistas, o momento mais marcante na sua vida em relação ao futebol?

Carlos Miguel da Silva: Como disse, aqui no São José sempre se fez bons times, até porque praticamente foi só no São José que joguei, fiquei 4 anos fora, mas realmente a minha vida como jogador foi aqui dentro do São José. E realmente, o ano de 71, quando fomos campeões da Copa Governador, esse realmente foi o maior feito que eu tive aqui dentro do clube. E sempre a gente fez boas campanhas, sempre se destacou muito. Tivemos a felicidade de ganhar da dupla Grenal várias vezes, não foi uma, nem duas, mas se ganhou várias vezes deles. Sinal que realmente o São José fazia um grupo bem homogêneo que se destacava.

Site SJ: Como foi a sua experiência de jogador de futebol?

Carlos Miguel da Silva: Como eu gostava de futebol desde moleque e tive a oportunidade muito cedo de ser convidado para jogar num clube grande, aonde realmente eu me destaquei, e também como eu casei muito novo, aí eu comecei a jogar futebol mais profissional, porque eu já tinha família, então precisava trabalhar. Mas me dedicava muito, gostava de jogar futebol e graças a Deus sempre tive sorte no futebol. Acredito até que tenha sido um bom jogador porque o pessoal falava, o próprio São José é testemunha.

Site SJ: Então, o senhor acredita que influenciou seu filho, Carlos Miguel Junior a jogar futebol?

Carlos Miguel da Silva: Com certeza, só que ele começou aqui nas escolinhas de base e quando saiu do São José ele foi para o Grêmio, aonde ele teve uma carreira esportiva muito boa.

Site SJ: O senhor tem só ele ou tem mais filhos?

Carlos Miguel da Silva: Tenho 3 filhos homens

Site SJ: E eles jogam ou não?

Carlos Miguel da Silva: Não, o mais velho até poderia jogar, mas por causa do estudo que não dava para conciliar as duas coisas, ele optou por estudar. É muito difícil hoje, já no meu tempo era difícil estudar e jogar, hoje então, é muito mais, conciliar o estudo por causa dos treinamentos. Não dá para conciliar, porque, ou a gente se dedica ao futebol, se prepara para aquilo ou vai estudar. E o meu filho optou por estudar. Mas eu acho que ele seria um bom jogador como o Carlos Miguel Junior.

Site SJ: O senhor tem idéia de quantos gols você marcou?

Carlos Miguel da Silva: Olha aqui no São José não marquei muitos gols, não sei dizer com precisão, mas fiz gols, mesmo jogando de lateral, jogando no São José.

Site SJ: Qual o seu gol inesquecível?

Carlos Miguel da Silva: O gol que realmente me marcou bastante quando eu jogava no Esportivo que foi o gol da vitória contra o Internacional de Santa Maria do qual o Esportivo foi Campeão Gaúcho do Interior em 1972.

Site SJ: Além de jogador, o senhor teve outra profissão?

Carlos Miguel da Silva: Hoje eu tenho um pequeno comércio, sou aposentado.

Site SJ: Quando viste que era o momento de encerrar a carreira como jogador?

Carlos Miguel da Silva: Quando eu vim de Bento Gonçalves para Porto Alegre eu ia encerrar minha carreira porque o meu filho, o Carlos Miguel Junior, ele é natural de Bento Gonçalves, tinha um problema de bronquite, o clima de lá é bastante ruim para quem este tipo de problema e ele se atacava muito. Então, quando terminou o meu contrato com o Esportivo, em 74, eu já havia avisado que não iria mais ficar, mas como naquele tempo a gente não era dono do passe, o passe era do clube, então eles perguntaram que é que iria comprar o meu passe. Daí eu disse que não ia jogar mais e vim embora para Porto Alegre por causa do problema dele, porque o próprio médico disse que ele estava com este problema. Aí recebi um convite do São José e acabei jogando por mais 2 anos, mas não quis receber nada, ganhava prêmios, mas ordenado não. Parei de jogar em 76. Aí eu fui trabalhar com o presidente que era do São José, o Sr. Humberto Ruga que me convidou para trabalhar com ele e foi e minha primeira e única firma, nunca trabalhei em outro lugar a não ser lá. E acabei me aposentei lá.

Site SJ: Qual sua opinião sobre a Lei do Passe?

Carlos Miguel da Silva: Eu entendo a lei do passe como sendo muito boa pa o jogador que realmente tem mercado, pois o jogador termina o seu contrato e fica livre para escolher onde quer jogar. Aquele jogador que não se destaca tanto, esse sofreu bastante porque antes ele tinha vínculo de ficar com o clube, tinha a segurança do clube, ou emprestar para alguém ou ficava no próprio clube. Depois que foi feita e lei, realmente ficou difícil, até para os próprios clubes que preparam as categorias de base, todo aquele investimento de 3, 4 anos no jogador e depois ele chega e diz “To indo embora”, e aí, quem ressarci o clube? Por isso, então ficou bom para o jogador, mas aquele que tem mercado.

Site SJ: Como senhor vê o futebol brasileiro na atualidade, comparando com o de sua época?

Carlos Miguel da Silva: Na época, os clubes não eram tão profissionais, não eram tão organizados como são hoje. Era mais amador. Hoje está organizado, tem preparador físico, gerente de futebol, etc. No meu tempo não tinha essas coisas, nós tínhamos o massagista, porque nem médico vinha e o treinador. Assim era composto o departamento de futebol. O treinador era tudo: psicólogo, preparador físico, auxiliar, treinador e até roupeiro.

Site SJ: Como o senhor mantém a forma? Ainda pratica algum esporte?

Carlos Miguel da Silva: Não, digamos, não para manter a forma, mas para a saúde, hoje faço caminhadas.

Site SJ: Nos momentos livres, o que gosta de fazer?

Carlos Miguel da Silva: Eu gosto de viajar, eu tenho o maior prazer em viajar. Chego a viajar sozinho. Quando meu filho estava jogando em São Paulo, eu ia para lá seguido e ia muitas vezes sozinho. Então, o meu hobby é viajar.

Site SJ: O que o São José representa para o senhor?

Carlos Miguel da Silva: É o clube que praticamente comecei a minha carreira aqui dentro, apesar de não ter iniciado nas categorias de base,, mas eu comecei e minha vida de profissional aqui no clube, então eu tenho um carinho muito grande pelo São José. Esse é o meu clube do coração. É um clube que eu aprendi a amar.

Site SJ: O que o senhor diria para quem está jogando, que está começando sua vida profissional?

Carlos Miguel da Silva: O futebol hoje é um emprego como qualquer outro, se a pessoa que realmente não levar a sério aquilo que faz, ele jamais vai alcançar seu objetivo. Então, principalmente esta gurizada que está começando, tem que levar a sério, porque o esporte, além de ser uma coisa que por si já gosta, se tomar por capricho, levar a sério mesmo, vai conquistar seu espaço. O futebol hoje é muito dinâmico e se a pessoa não acompanhar, não se preparar para isso, não vai consegui o objetivo. Então é muita luta, muito trabalho e muita vontade

 

Entrevista concedida em 14/09/2006 para Kátia Gauer.

 

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